quarta-feira, 10 de abril de 2013

De 04 a 08 de maio de 2012_Expedição Brasília_Araguaiana



Passados uns dias de volta ao Brasil, retomada a rotina, eis que minha amiga liga expressando o desejo de rever a família no interior de Mato Grosso. Sim, Karol. A amiga que havia me hospedado em Milão. Não tinha carteira de motorista e por isso precisava alguém que executasse a árdua tarefa de levá-la até lá. Pois segundo ela ir de ônibus é quase desistir de ver a família para sempre. Viagem longa e sofrida.
Eu via boas razões para isso. A primeira é que desde que ao meu alcance, eu adoro fazer gentilezas. As demais eram o Rio Araguaia para eu me banhar, dirigir sozinha na estrada por quilômetros e horas a fio, ir pra roça e comer comida de roça. Todos os quesitos, a meu ver estavam preenchidos.
Parti de Brasília às 09:00 da manhã do dia 04. Cheguei em Anápolis para busca-la quase 11:00. Ela naquele sossego que lhe é peculiar, porém não natural às caronas, ainda estava fazendo as unhas. Sorte nossa termos nos abastecido bem no mercado. O caminho é longo e a estrada é deserta como na canção de chapeuzinho vermelho.
Saímos de Anápolis pouco antes de meio dia. No caminho, google maps em punho, fomos conhecendo as cidadezinhas intrigantes do interior de Goiás. Seguimos no sentido Pirenópolis (loucas para ficar por lá e tomar banho de cachoeira), Itaberaí e um monte de trecho errado que a gente foi se distraindo e buscando no caminho. Num desvio sem placa, não fosse a baixa velocidade e meu receio de ir até o fim da pista, teríamos caído numa vala que mais parecia uma Dolina.
Ao todo, foram umas seis horas de estrada até chegar à ponte Itacaiu onde o pai de Karol aguardava a gente na “motinha”. Seguiríamos o seu Haruo até a fazenda porque já era noite e não saberíamos chegar sozinhas. Essa foi a parte aventureira da viagem. Parecia que não ia chegar nunca! Muita terra, muito buraco, muito cansaço acumulado, muita fome, muito tudo! A moto não corria então eu tinha que ir devagarinho seguindo e ao mesmo tempo com farol baixo para não confundí-lo, nem atropelá-lo. Pense... Chegar à modesta casa de adobe e ter “jantinha” pronta nos esperando , seguindo de banho quente e cama, foi um alento.
Nos dias que seguiram foram, banho de rio, comida mineira e descanso. Uma vidinha assim, mais mais ou menos do que a que eu pedi a Deus. Era acordar cedo, porque no mato é gostoso, tomar banho no Araguaia até dar a hora do almoço, dormir na rede à tarde e à noite depois do jantar, dormir cedo para começar tudo de novo. Ouvindo barulho na mata, alimentando a adrenalina da possibilidade de serem onças.
Lá em Araguaiana, tive conversas mais interessantes ainda com Karol do que as que tivemos na Itália. Ali, eram as raízes dela. Foi bom conhecer o universo de quem já convivia comigo há tantos anos, porém em realidades tão distintas. Falamos sobre todos os assuntos do mundo. Todo choro que poderíamos por pra fora ficou por lá.
Se eu que já parei de comer carne há três anos sentia ”nojinho” ao ver carne vermelha frita na panela, lá vendo o boi pendurado pelo gancho sendo limpo pela mãe de Karol me fez ter certeza que eu não queria MESMO comer mais carne.
Foram dias reais. Como gosto. Chinelo. Muitas vezes pé no chão. Nada de pente. Nada de batom. Só o vestidinho de algodão enchendo de carrapicho. Comer pipoca doce feita do milho debulhado na roça adoçada com rapadura era estar no paraíso sendo abanada pelas asas de anjos. Como eu comi!
Feijão preto, arroz branco, milho cozindo, doce de casca de baru...
Karol que é agoniada, entediou e me pediu para voltarmos um dia antes. Trouxemos Dona Marina, mãe dela de carona até Paraúna para visitar a mãe e ainda bem. No caminho esburacado das estradas abandonadas desse nosso Brazilsão, uma de minhas rodas amassou, furou meu pneu e elas tiveram de ir em busca de ajuda enquanto eu esperava fora do carro numa estrada sem acostamento.
Não vou dizer que foi confortável, mas também não senti medo. Foi no mínimo inquietante esperar numa estrada deserta comigo e meu carro a mercê da velocidade de quem vinha. Mas tudo correu bem. Paramos em mais algumas cidadezinhas para ver mirantes e eu a devolvi e Goiânia bem na hora do rush. Foi difícil sair de cidade grande. Nós que estávamos a base de passarinho e água de rio, de repente no caos que é o trânsito de Goiânia com busina e poluição sonora de todas as espécires.. Eu só ando por lá na companhia de minha irmã mais velha ou de alguém que more por ali. Nunca sozinha, pedindo informação à cada semáforo.
De Goiânia à Brasília, aquela velha estrada conhecida minha, tudo correu bem. 1609KM depois, eu estava de volta à minha casa, comparando a discrepância deliciosa de chegar da Europa e visitar o inteior do Brasil. Grata à Karol pelo convite. Grata à minha coragem. Grata à Deus que sempre cuida de mim.








Nenhum comentário:

Postar um comentário